Sair do armário ou não sair, eis a questão!

Ontem estávamos na casa de uma amiga fazendo um churrasquinho básico, quando que no fim da noite surge a inseparável dúvida de todo homossexual que eu conheço, contar ou não contar aos pais e como se comportar no trabalho.

Creio que cada uma tem uma opinião diferente sobre o assunto, como tivemos ontem, estávamos em quatro pessoas e com quatro opiniões diferentes.

A minha opinião de contar ou não contar aos pais é controversa, hoje, sabendo no que meus pais se transformaram e vendo toda a evolução deles, digo que sair do armário e assumir-se é a melhor opção para todos. Mas, em contrapartida dessa visão, eu me lembro de como eu sofri quando sai do armário e poderia afirmar que não se deve sair do armário, mas não existe dor que o tempo não cure.

Vamos voltar no tempo e falar sobre o ano de 2010.

Eu tinha acabado a faculdade, estava namorando há 2 anos e tive que voltar a morar com meus pais. Passei 5 anos morando sozinha e tive que fazer as malas e voltar para a casa deles. Voltei para a minha cidade natal, pois tinha arranjado um emprego e visitava a namorada aos finais de semana.

Em janeiro de 2011, no dia do meu aniversário, iria voltar de férias do trabalho e assim que cheguei de volta fui mandada embora. Eu fiquei sem chão, mas voltei para casa disposta a me reerguer e batalhar. Minha mãe resolveu que precisava conversar comigo, que precisava falar sobre minha sexualidade e sobre a menina com quem eu passava meus finais de semana. Ok! Vamos conversar. Ela me perguntou, me questionou, falou que isso não é de Deus. Foi uma conversa intensa, cheia de choro e explicações. Mas existe explicação? Ser homossexual tem explicação? Essa conversa foi a pior conversa que tive com alguém na vida, não sei descrever o que senti naquele momento, não sei se era raiva por não ser compreendida, se era mágoa por estar fazendo minha mãe se culpar e achar que errou na minha educação ou se era desespero pelo futuro.

Os dias seguintes a essa conversa foram torturantes, eu estava desempregada, ficava em casa o dia todo e minha mãe também ficava em casa o dia todo, pois ela trabalha em casa. Inúmeras vezes ela entrou em meu quarto e despejou palavras de ódio e desamor, quando digo inúmeras é porque foram inúmeras e inúmeras dia após dia por três meses.

Consegui um emprego e, enfim, poderia passar o dia longe da minha mãe. Naquela época eu já não escutava mais quando ela entrava no quarto e dizia suas palavras carregadas de ódio. Se você me perguntar sobre o que ela falava, não sei te responder, pois tenho uma memória seletiva e isso eu deletei do meu HD.

Depois que arranjei esse emprego, meus pais nunca mais falaram nada sobre minha sexualidade, eles foram em um terapeuta, que não adiantou muita coisa e eu também fui para a terapia, que também não mudou em nada meus pensamentos.

Pulando para o fim do ano de 2013, foi quando comecei a sair com minha atual esposa e em 2014 houve novamente o confronto com meus pais, falar sobre estar namorando uma menina e querer me casar com ela fez todas as dores escondidas se aflorarem e saíram das trevas.

Quando me mudei de cidade para casar com minha esposa, meu pai me desejou AZAR, sim AZAR, ele falou com todas as letras que meu casamento não iria dar certo que a minha esposa não ia me aguentar. Minha mãe chorou como se estivesse me vendo em um caixão. Eu agradeci o suporte que estava recebendo e disse que meu casamento ia dar muito mais do que certo.

Voltando para o dia de hoje, 20/03/16, estou casada há mais de um ano e com 5 filhos, moro bem, estou na melhor fase da minha carreira.

 

E seus pais? Você me pergunta.

Eles estão bem, cada dia é uma batalha, tenho certeza disso, mas eles estão se saindo muito bem. Hoje posso dizer que eles aceitam meu casamento, que aceitam minha esposa e que finalmente entenderam que não há nada de anormal na relação que eu tenho com ela.

 

E eu?

Eu tenho minhas cicatrizes e minhas marcas das brigas que tivemos, mas foram batalhas que tive que enfrentar para hoje ter a paz reinando.

 

E o trabalho?

A namorada da minha amiga está com um emprego novo, e ontem estava nos dizendo sobre como está lidando com esse dilema.

No último emprego que tive, antes de abrir minha própria empresa, meu chefes eram evangélicos fervorosos e quando perceberam que sou lésbica começaram uma batalha para acharem motivos para me mandar embora.

Eu sempre fui da premissa de só contar se me perguntarem, se não perguntarem é porque não interessa. Até hoje isso está dando certo, rsrs, mas já me passei por heterossexual quando entrei no emprego que citei logo acima (em 2011), mas foi por pouco tempo e depois de quase três anos trabalhando lá vieram me perguntar sobre minha sexualidade, assumi que sou lésbica para essa pessoa que me perguntou e para mais duas pessoas que são minhas amigas até hoje. Tenho certeza que a história de eu ser lésbica se espalhou para vários departamentos da empresa, porém a maioria, não estava nem aí para isso, continuaram a me tratar da mesma maneira. Tanto que hoje eu presto serviço terceirizado dentro dessa empresa e ainda me sinto de casa quando revejo todos que trabalharam comigo, bem diferente de quando revejo meus ex-chefes evangélicos.

 

O que posso dizer sobre contar ou não contar?

Digo que tenho várias experiências, em sua minoria não obtive o sucesso de imediato, mas conquistei meu espaço com o decorrer do tempo. O único caso de fracasso que posso dizer é desse último emprego, pois acabei sendo demitida por uma questão de preconceito e ego ferido. Mas em sua maioria eu fui muito bem aceita e muito bem amada. No caso dos meus pais, posso dizer que foi um semi fracasso, pois não consegui o amor e a compreensão deles de imediato como eu queria, mas estou conquistando isso dia-a-dia, passo a passo.

No texto que escrevi sobre ter orgulho de ser homossexual tem um parágrafo que fala sobre confiança, e diz assim: “ A confiança nas pessoas que convivem com você vai ser muito mais intensa e sincera, pois terá a certeza que elas vão te apoiar em qualquer problema que venha ter. Ao abrir-se e dizer-lhes quem você realmente é tornará o aprendizado sobre você muito mais fácil.“

E volto a dizer, é muito mais fácil ser você mesma, é muito mais prazeroso falar sobre você e querer novas amizades se você vive sem mentiras.

 

Todo começo é complicado, quando você entra no colegial, quando entra para a faculdade ou quando se muda de cidade, mas não pode desistir, pois com o tempo as coisas melhoram, você se acostuma e aprende a conviver.

No ambiente de trabalho as fofocas sempre vão existir, mas quanto mais você tratar o assunto com naturalidade mais natural ele vai ser.

 

A vida dentro do armário é sufocante, você já entrou dentro de um armário de verdade e tentou passar lá uma tarde?

É sufocante e angustiante, viver assim é maléfico.

Liberte-se, você não estará sozinha, aqui fora há um mundo com infinitas possibilidades.

 

Quem te ama, vai ficar ao seu lado, vai cuidar de você e vai estar disposta (o) a pelo menos pensar no assunto.

Saber como será a reação das pessoas é humanamente impossível, cada ser humano tem uma bagagem emocional diferente, uma cultura diferente e um preconceito diferente. Quem não ficar ao seu lado e não quiser passar por cima do preconceito, você deixa de lado, pois este  não serve para estar na sua vida. Você merece ter pessoas maravilhosas ao seu lado.

 

Alice
 

 
 
 
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7 comentários sobre “Sair do armário ou não sair, eis a questão!

  1. Eu nao sabia dessa parte da sua vida! Cinco filhos? Que delicia de vida voce conseguiu conquistar *_* . Que orgulho das suas lutas e mais ainda da suas vitórias, que voce continue buscando aquilo que te faz feliz e sempre com respeito ao próximo. Parabéns pelas historias, vira e mexe eu leio e lembro dos tempos do “mãe” rsrs saudades.

    1. GLS!!! *.*
      Saudades do tempo em que entrávamos no msn só para falar besteiras, rsrs.
      O tempo do “mãe” foi muito importante para mim, principalmente pelo suporte que recebi na época, perceber que existiam muitas meninas como eu perdidas no mundo me dava esperanças de um futuro melhor. Conquistei uma vida muito deliciosa mesmo, rsrs. Espero que você continue acompanhando o blog, em breve quero disponibilizar meus livros. 😀
      Um abraço!

  2. Estar no armário realmente mata vc por dentro,eu tenho 43 anos é não sai do armário,estou quase morrendo literalmente,já pensei até em suicídio,minha é evangélica amo ela mas extremamente homofobia o pior de te que ela é idosa meus irmãos abandonaram e mora comigo,amoooo ela mas Deus me perdoe já pensei que só vou poder viver minha vida quando ela falecer ai eu penso e se eu morrer primeiro que vida miserável foi a minha,adoro ler seus contos,e vejo como sou covardde.hj eu já me matei de dez formas diferentes.estou criando coragem pra acabar com esse sofrimento.Felicidades fico feliz que as pessoas como vc conseguem viver o meu sonho e o de tanta gente. Parabéns pela coragem.eu me chamo Nueli.’

    1. Olá Nueli, assumir-se é uma fase extremamente difícil, mas é mais importante ser quem você é. O fato de você não se assumir não é covardia e nunca será covardia. Pensar em suicídio ou tentar suicídio não é a melhor forma de superar os problemas que a vida nos dá. Não abrevie sua vida porque os outros não te entendem ou não querem te entendem. Viva sua vida com alegria e entusiasmo e não se importe com o que sua mãe vá pensar de você. Você também pode viver esse sonho.
      Obrigada por acompanhar o blog, força e fé em você mesma e tudo ficará bem.

  3. Publicamente contar a verdade e complicado a pessoa tem saber como vai dizer,mais se for achar que e uma coisa agressiva não conte experiência propia deixo uma frase “A carência da maioria impõe-se à carência da minoria, ou de um só”.Nao e covardia não contar

    1. Olá, Junior, tudo bem?
      Não acho covardia não contar, cada realidade é diferente e cada caso é um caso, o texto só quis dizer que sair do armário é possível.
      Eu sofri muito com a minha saída, mas hoje eu vejo que tudo o que passei foi para que hoje eu seja uma pessoa melhor e tenha pessoas melhores ao meu lado.
      Um abraço,
      Alice Reis

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