Afinal, quem é Alice?

Alice nasceu quando eu tinha 15 anos, nasceu quando eu percebi que gosto de mulheres.

 

Mas para você entender melhor esse nascimento preciso falar um pouco sobre meu pai, ele é uma pessoa fechada, dificilmente se expõe emocionalmente, trabalha com carros, pneus e afins desde os 15/16 anos, católico, machista e impositor.

 

E precisa saber da minha mãe, trabalha com estética facial, uma pessoa emotiva, carinhosa, chorona, carente, católica e mandona.

 

Ambos homofóbicos.

 

Voltando aos meus 15 anos, eu estava na oitava série (acho que é isso), eu não me sentia aceita nas rodinhas, eu nunca fui excluída, mas era diferente, eu não me sentia introsada com o pessoal, não tínhamos o mesmo tipo de conversa. Me lembro que todas as meninas tinham um paquera e eu inventava para participar da conversa. Eu tinha mesmo era vontade de beijar as meninas com quem eu tinha amizade.

 

Outro detalhe que é bem importante de você saber, é que eu morei em uma cidadezinha do interior com menos de 30.000 habitantes, onde todos conheciam meus pais. Parece impossível meus pais conhecerem 30.000 pessoas, até hoje eu não sei o que acontece naquela cidade, mas todos conhecem meus pais.

 

Com esse cenário fui criada. Eu morria de vontade de beijar uma menina, mas nunca achei alguém que compartilhasse dessa vontade (até chegar na faculdade). Homossexuais eram  uma lenda urbana, todo mundo ouvia falar, mas nunca tinha visto.

 

Eu sentia essa vontade, mas minha criação era contra, minha criação dizia que era errado e pecado. Eu frequentava a Igreja todo domingo, todo domingo eu saia de casa puxada pela orelha, pois eu nunca queria ir, aquilo não condizia com minhas vontades. Eu sempre me perguntava como Deus poderia ser tão cruel ao ponto de falar que duas pessoas do mesmo sexo não podiam ficar juntas, mas ao mesmo tempo ele nos dava essa vontade, esse desejo.

 

Passei anos indo à Igreja e remoendo essa pergunta, passei anos com vontade de beijar uma mulher.

 

Outra coisa importante é que com 15 anos eu comecei a escrever histórias, romances homoafetivos, onde duas mulheres podiam se amar sem que ninguém as impedisse. Eu escrevia em um caderno e depois em outro e depois em folhas avulsas. E para escrever eu me tornava outra pessoa, era como se eu não morasse e não tivesse sido criada nas condições que fui, eu me tornava Alice, a escritora. E camuflada de Alice eu escrevia histórias que eu queria viver, mas não podia.

 

Eu vivia sobre uma pressão interna infernal. Contar para minhas amigas que eu queria beijar meninas ou não contar, buscar ajuda com meus pais ou fingir que sou “normal” e beijar meninos. Com esse conflito eu me afastei de todas minhas amigas da época e tive uma adolescência bem solitária. Era eu e Alice, brigando para saber quem tinha razão sobre a vida. Fora do quarto eu era heterossexual, dentro do meu quarto eu era gay.

 

Fiz o que a maioria é obrigada a fazer, fingi ser heterossexual, até no começo da faculdade eu fingi ser, mas depois com o tempo eu conheci pessoas que me levaram para o lado da luz, rsrsrs, pessoas que me mostraram que o que eu sentia era verdadeiro e que Deus era bom. Pessoas que fizeram Alice ganhar a batalha interna que eu travava todo dia quando pegava uma caneta para escrever.

 

Envolta nessa atmosfera homofóbica, anti-gay, eu cresci e sobrevivi. Quando meus pais finalmente descobriram que eu gostava de mulher, foi um verdadeiro desastre que já contei para vocês no texto que falei sobre sair do armário. Mas como se diz por aí, não tem nada que o tempo não cure.

 

Alice.

 

 
 
 
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9 comentários sobre “Afinal, quem é Alice?

    1. Minha querida, você não sabe como fico feliz de você me deixar um recado. Refletir sobre nossa própria vida é muito bom, nos faz repensar várias coisas que fizemos e o que ainda vamos enfrentar. 😉

  1. Bom dia!

    Nossa a sua história é parecida um pouco com a minha!
    Adoro seus contos, acho que estou adorando você! Kkkkkk.
    Como faço pra comprar seus livros?

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